20/07/2010

Abduzido


Pela janela do ônibus eu podia avistar o céu azul celeste cravejado de estrelas peroladas que cintilavam sobre a paisagem bucólica do interior. A luz da lua cheia revelava as mais distantes árvores que prostravam-se formosas no infinito horizonte do lado esquerdo da estrada. Pude identificar um pequeno grupo de vacas brancas no límpido campo verde onde pastavam e descansavam dentro de um grande e imperfeito círculo de arame farpado. Que lindo é o campo na intensa luz da noite!

Contemplei a paisagem por alguns minutos e olhei mais uma vez para o céu focando meus olhos numa enorme estrela vermelha que ainda não havia notado. Segundos depois a estrela mudou de cor, ficou azul. Estranho! - pensei. Logo em seguida ganhou um tom lilás, depois ficou amarela. Entendi que não se tratava de uma estrela, mas algo que reunia três luzes que alternavam as cores a cada dois segundos. Percebi que esse objeto não se movia, somente pairava cerca de vinte metros acima do chão; não estava preso por fios elétricos, não era avião ou torre, não era nada do que eu já havia visto no céu.

É um OVNI! - Analisei mais uma vez aquelas curiosas luzes flutuantes - Sim, é um disco voador! Naquele instante fechei os olhos e senti algo que tomou conta de mim: pavor. Aquele disco vinha pairar na parte de cima do ônibus, jogava uma grandiosa luz espelhada em cima dele e o sugava para o alto. Todos dentro do veículo começavam a grunhir pedindo por socorro, mas era inútil tentar qualquer movimento, a luz fazia com que todos permanecessem paralisados por uma espécie de anestésico extraterrestre. O transporte foi literalmente engolido pela nave.

Dentro dela um clarão cegava a todos sem que os olhos ardessem, sem que conseguíssemos ao menos piscar. Era possível identificar pequenos olhos negros ganhando forma dentro do clarão que agora parecia uma densa e palpável névoa. Aos poucos podia-se perceber o formato da cabeça dos seres que saiam dela, aqueles olhos negros agora pareciam lentes de óculos escuros cravados numa luminosa e lisa pele branca. Tinham membros longos, troncos pequenos. A cabeça era desproporcional e a boca miúda parecia não possuir dentes.

Inerte e cheio de horror, via os extraterrestres pegando os passageiros e encaminhando-os para uma sala de paredes laminadas onde os faziam repousar, um de cada vez, numa câmara de cristal líquido. Cada corpo era submerso no líquido multicolorido e este penetrava em todos os orifícios do corpo humano fazendo com que ele fosse esticado como elástico, como se não tivesse ossos, e até mesmo enrolado como num carretel de linha.

Meu coração batia descompassado pela taquicardia, o ar me faltava, todas as veias tremiam dentro de mim. Meu suor era gelado. Senti que estava prestes a deixar de existir. Estava apavorado porque a morte estava diante de meus olhos. Eu queria sair correndo, esgotar meu choro, queria gritar, ficar mudo de tanto gritar. Meu Deus, me tira daqui!

Abri os olhos, respirei fundo e tranquilizei-me em poucos minutos. Todos dormiam em silêncio dentro do ônibus, eu só ouvia o barulho do motor e dos carros na estrada. Virei-me novamente para olhar do lado de fora da janela e avistei o estranho objeto que continuava pairado sobre o campo. Ufa! Como é que um balão meteorológico pode estimular a imaginação de tal maneira?

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