07/07/2010

Resignado

Cheguei em casa. Fui direto para o banheiro, não olhei na cara de ninguém. Tranquei a porta, suspirei, soltei meu corpo e terminei de joelhos no piso vermelhão. O suor da testa deslizava pela minha face chegando até meu lábio superior; o gosto não mais era salgado, era amargo. Queria beber toda a água do chuveiro, seu barulho abafaria o som de meu cansaço e tolerância com a vida, afinal eu precisava chorar, mas lembrei-me de que a conta da água viria muito alta caso eu me brindasse com um longo banho de curtos dez minutos.

Do outro lado da parede a minha frente estavam meus dois filhos mais velhos, brigando na sala. Atravessando a parede direita estava minha mulher com meu filho mais novo no colo e as gêmeas, sentadas a mesa da cozinha, deviam estar revirando os olhos de forma sincronizada devido a força que o estômago fazia ao implorar alimento. Eram todos como saquinhos de areia no prato de uma balança onde, no prato contrário, o peso de meus ombros não me deixava ser lançado para o alto como numa catapulta. Eu achava que quem dizia que a vida é maravilhosa não conhecia a minha!

Grito de criança me causava irritação, mas eu não podia gritar. O berro me tentava a ser violento, mas eu nunca seria. É dolorido ouvir o choro reverberando dentro dos ouvidos. É triste enxergar tristeza nos olhos dos tristes. O peito racha quando tudo dentro dele se petrifica lentamente ao longo dos anos, mas chega o momento em que ele desmorona e esse momento chegou. Brindei-me com um longo banho de curtos dez minutos, pagarei por ele quando a conta vier.

Cheguei em casa. Passei a mão na cabeça dos meus dois filhos mais velhos e fui para cozinha. Encostei o nariz nos cabelos de minha mulher e deliciei-me com o suave perfume do sabão de côco. Com um timido sorriso nos lábios acariciei o bracinho magro e pálido de meu filho mais novo, depois virei-me para contemplar os lindos olhos fora de órbita das gêmeas. São todos como aviõezinhos de brinquedo fazendo um espetáculo aéreo dentro do meu próprio ser, mas preciso movimentar-me com cautela para que o deslocamento do ar não os derrube ao chão. Eu não sabia o quanto a vida é maravilhosa, foi preciso chegar no limite!

Grito de criança me causa nervoso, não me importo em não poder gritar. O berro me convida ao descontrole, mas fico feliz por não me deixar seduzir. O som do choro conforta quando não se pode ouvir risos pela casa. É belo enxergar beleza nos olhos dos belos, mesmo que estejam tristes. O peito se renova quando a pedra vira areia que desaparece para dar lugar ao coração, e cuidarei para que não endureça uma segunda vez. Tomarei longos banhos de curtos dez minutos, não me preocuparei enquanto a conta de energia elétrica não chegar.

7 comentários:

Poeta de Alcova disse...

Nossa, que inspiração! Que amargo e doce. Alegre e triste. Entre tantas frases que considerei pérolas, destaco essa: "O peito se renova quando a pedra vira areia que desaparece para dar lugar ao coração, e cuidarei para que não endureça uma segunda vez". Texto demais de tocante, sensível, profundo, belo, de esperança. Amei.

RoDrIgO MOuRa disse...

Pois é, pensei em algo em que todos pudessem se identificar, mas com aquele fundo de experiência pessoal. Que bom seria se as pessoas adotassem o choro como remédio para o espírito, afinal só ele pode despedaçar a amargura. Thanks!!!

Pontes disse...

Impressionante Rodrigo!

Que inspiração! Já era seu fã antes do blog. Agora mais do que nunca!

Abraços,

RoDrIgO MOuRa disse...

EDSON, meu querido, obrigado pelo comentário. É de grande valia!!!

Lene disse...

Lindo, Rodrigo...
Através de tua inspiração e sensibilidade, me levou a uma profunda reflexão. Adorei
Beijos

Anônimo disse...

Quão impressionate a vida espiritual deve ser cuidada para que possamos entender o motivo de nossa vã existencia....

valew Rodrigo, serei sempre seu fã..
nem preciso me identificar, to muito feliz de saber que não devo me arrepender de ter conhecido voce como amigo..


Abcs!!


K

RoDrIgO MOuRa disse...

Obrigado, Sr. Anônimo.