12/12/2010

O Anão e a Esnobe Executiva

Toda perfumada, maquiada, ostentando jóias e roupas de grife, ela dobrou a esquina fazendo sinal para o táxi parar. Acostumada a olhar para todos de cima de seu venerado pedestal, nem se deu conta que sua pesada pasta executiva havia encontrado o rosto de um anão com menos de setenta centímetros de altura e lhe derrubado ao chão devido ao brusco impacto.

Após perder o táxi de vista, a afobada executiva decidiu inspecionar sua pasta em busca de um arranhão, pois sentiu que a mesma havia batido em algo que poderia tê-la danificado. Nada encontrou. Olhou para trás e deparou-se com o pequeno homem estirado na calçada. Enraivecida, pensou: "Droga! Perdi meu táxi, uma reunião importante, minha cabeça vai rolar e ainda terei de socorrer um desgraçado de um anão antes de caminhar altiva para a guilhotina!"

Deu alguns passos e prostrou-se ao lado do anão, olhando-o sem inclinar a cabeça. Fitou seu pequeno nariz inchado por um hematoma e, ainda apática, vislumbrou uma poça de sangue que se originava da nuca do pobre homenzinho.

- O Senhor precisa de ajuda? - perguntou ela esperando uma resposta negativa para poder, assim, sair dali o mais rápido possível.

- Não, obrigado! - respondeu ele franzindo a testa tamanha era sua dor - Quem precisa de ajuda é a Senhora.

De inopino a expressão da esnobe mulher passou da irritação para a perplexidade. Quis indignar-se, mas analisou a fragilidade do anão e não conseguiu associar aquela cena com a ironia que lhe era conhecida de rotina.

- Eu? Ora, meu querido, o senhor não está em juízo perfeito. É melhor chamar uma ambulância com urgência.

- Realmente não preciso de ajuda. - disse o anão ao levantar o tronco e sentar-se na calçada - Esta não é a primeira vez que a Senhora me machuca.

- Não me lembro de tê-lo visto antes! - exclamou ela já comovida pelo triste olhar do pequenino - Deve haver algum engano.

- Engano nenhum. Há cinco dias a Senhora bateu em minhas costas com a porta de um táxi enquanto entrava nele; eu estava parado na beirada da calçada. Na semana passada, no dia em que choveu, bateu-me na orelha ao armar a sombrinha; eu estava atravessando a rua ao seu lado. Há uns quinze dias derrubou-me com a corrente da coleira de sua dálmata quando ela tentava fugir. No mês passado atropelou-me com sua bicicleta enquanto pedalava no parque no domingo de manhã. Na mesma época abriu o portão e...

- Perdoe-me. Por favor, peço que me perdoe! - disse ela ajoelhando-se ao lado do anão, dando início a uma incontrolável torrente de lágrimas.

- Perdoe-se! A Senhora precisa se perdoar.

- Perdoar-me, por quê? Não tenho a mínima idéia do que eu possa ter feito! - disse a esnobe executiva totalmente em prantos.

- Deve perdoar-se por ter criado seu próprio mundo sem ter levado ninguém para dentro dele. Não vê as pessoas que lhe cercam, não ouve quem quer lhe falar. Preocupa-se com suntuosidade de sua aparência externa, mas seu interior está cada vez mais rústico, sem cor, sombrio pela falta de se deixar compartilhar. Em seu mundo não pode haver erros, sendo assim não há como tirar lições de aprendizado. Até mesmo sua cachorra foge de ti. Viva no mundo em que estás e não no mundo em que criastes. Ajude-se. Perdoar-se por ter se isolado em seu próprio mundo é a porta que lhe trará de volta ao lugar onde poderá aprender.

- Espere! Chamarei uma ambulância, é o mínimo que posso fazer. Meu coração pede que lhe ajude, quero reparar as dores que lhe causei. Só assim me sentirei melhor.

Com uma das mãos a mulher tentou enxugar as lágrimas e com a outra tirou o celular de dentro da bolsa. Olhou para o aparelho, discou o número de emergência e, em seguida, deixou a cabeça cair para trás fixando os olhos no céu. Após alguns toques, ouviu a palavra "emergência" do outro lado da linha.

- Por favor, eu preciso de uma ambulância com urgência!

Uma voz suave e familiar respondeu-a ternamente.

- A Senhora não precisa de uma ambulância, apenas começou a ajudar-se.

Era a voz do anão que ela ouvira pelo celular. Assustada, olhou rapidamente para baixo procurando por ele. Nada encontrou na calçada. Não havia mais anão. Nem mesmo o sangue escorrido continuava lá.

Rodrigo Moura © 2010 Todos os Direitos Reservados

5 comentários:

A Poeta de Alcova disse...

Adorei! Infelizmente há muitas "senhoras" por aí, entretanto, felizmente há muitos "anões" incansáveis e corações transformados. Beijo.

RoDrIgO MOuRa disse...

Não só "senhoras", mas há muitos "senhores" por aí precisando encontrar um anão. Um "segredin": sonhei que estava correndo na chuva com o guarda-chuva aberto e acabei atropelando um anãozinho. Fiquei pensando no sonho e acabei escrevendo o conto. No site www.livrodosonho.com sonhar com anão significa sorte nos negócios, investimentos e projetos. TOMARA!!!

Luciano Moura Martins disse...

Parabéns Rodrigo!!! Amei o seu conto! Profundo, bonito e amplo para reflexões! Aproveito desde já para desejar um Feliz Natal! Um super abraço do primo, Lu.

RoDrIgO MOuRa disse...

Lu, que bom que gostou! Você leu acima a origem do conto? Realmente ele é amplo para reflexões porque de um sonho curto acabei escrevendo um conto longo (para os meus padrões). Obrigado, retribuo os votos natalino!!! Abração.

A Poeta de Alcova disse...

Profecia! =) Beijo