14/02/2011

As Janelas de José


               Seo José adquiriu o péssimo hábito de bisbilhotar a vida alheia quando chegou à Melhor Idade. Era algum tipo de angústia inconsciente que o atormentava desde a adolescência, mas que aprendeu a aliviar sublimando-a em forma de balela quando veio a aposentadoria. Da janela de seu apartamento acompanhava o dia a dia dos moradores do prédio vizinho da mesma forma que vigiava a rotina de seus vizinhos de condomínio; sabia o nome, profissão, estado civil e o número do apartamento de cada um deles. Assim, as novidades chegavam fresquinhas àqueles que iriam ter com ele nos horários em que saía para comprar algo.                                                             O enxerido senhor passava o dia difamando toda a vizinhança com comentários "pseudo-construtivos" e, quando a noite caía, lá estava ele no escuro de seu apartamento apontando seu binóculo para as janelas que conseguia alcançar. Homem educado, comunicativo e de reputação ilibada, poucos eram aqueles que o rotulavam como fofoqueiro, pois a maioria das pessoas acredita que a prática da fofoca é exclusivamente feminina.
           Certa noite Seo José espionou  a briga de um casal do prédio vizinho. Através do binóculo analisou seus gestos e expressões. Mas não identificou o teor da discussão, tirou apenas suas próprias conclusões. Mal conseguiu dormir devido a uma incontrolável necessidade de comentar o que viu. Na manhã seguinte, tomado por uma coceira em sua língua afiada, o discreto fofoqueiro desceu até a padaria, meia hora antes de o pão sair. Conversava com os que por ali passavam e aproveitava a oportunidade para disseminar o que havia visto na noite anterior.
           − Bom dia! Que manhã mais agradável, não é mesmo? Pena que a véspera tenha sido um verdadeiro inferno, foi difícil pegar no sono. – falando baixinho, prosseguiu – Aquele casal do apto 123 teve uma briga feia e lá da minha janela eu ouvia tudo o que falavam. Parece que a mulher chegou bêbada tarde da noite e o marido desconfiou que ela é puladeira. Pois bem, acho um absurdo as pessoas não respeitarem o sono alheio, ainda mais morando num lugar onde as janelas são praticamente coladas. Acho que não custa nada zelar pelo sossego dos vizinhos, não é verdade? Você não ouviu os gritos? 
          A noite caiu. Seo José tomou seu lugar à janela esperando fervorosamente que algo acontecesse. Pouco antes da meia noite percebeu que o mesmo casal havia iniciado uma nova discussão, mas, desta vez, quem chegara tarde com atitudes suspeitas fora o marido. O ousado abelhudo fechou as cortinas deixando apenas uma fresta. Apontou seu binóculo para o apartamento dos vizinhos no instante em que o marido fechava a janela para que o som da contenda fosse abafado. Acompanhando o movimento do casal sem poder ouvir o conteúdo do bate-boca, Seo José ofegando desacertado, com o corpo trêmulo, não mais se aguentava de curiosidade. Agoniado pela impotência de seu próprio ser, exprimiu: “Ah, se eu pudesse ouvir o que se passa naquela sala! Já que Deus não me dá uma audição mais aguçada, bem que o Coisa-ruim poderia me dar!”.
           Uma queda de energia deixou o bairro às escuras segundos depois. Inconformado por não conseguir espreitar a briga do casal, o bisbilhoteiro deitou-se no sofá próximo à janela para esperar a luz voltar. Acabou cochilando contra sua vontade.
             Vozes e ruídos surgidos do lado de fora do prédio fizeram com que Seo José saltasse do sofá. Pegou o binóculo às pressas e apontou para o apartamento do casal que espionara. Com admiração notou que apenas a mulher se encontrava no local. As vozes persistiam em seus ouvidos surgindo de todas as direções, mas não conseguiu identificar de que janelas partiam. Apontou o binóculo para todo o prédio vizinho em busca de luzes acesas. Naquele horário da madrugada eram poucos os moradores que continuavam acordados, não havia ninguém gritando ou falando alto.
       Intrigado pela gigantesca mistura de sons que ouvia, compreendeu que os cães latindo, som de TV, buzina, barulho de torneira aberta, alarmes e até crianças chorando formavam um verdadeiro tornado de ruídos e clamores em seus tímpanos. Seo José havia adquirido uma incrível audição sobre-humana. De início assustou-se com a profusão de sons que podia ouvir ao mesmo tempo, mas durante a madrugada percebeu que se fixasse o olhar na direção que desejasse, poderia identificar a voz ou o ruído que de lá sobrevinha mesmo que envolto numa manta de estampidos ensurdecedores.
           Amanheceu. No momento em que a janela da cozinha do casal foi aberta, Seo José lançou seu olhar para o interior do recinto e pôde ouvir com clareza o amargo diálogo entre os cônjuges na hora do desjejum. Delicados episódios íntimos foram repassados e discutidos pelo jovem casal que passava por um conflito de incompatibilidade. O ousado fuxiqueiro babava e lambia os beiços deleitando-se com cada detalhe que tomava conhecimento. Sua língua ardia pelo desejo de propagar as minúcias que ouviu. Assim que o casal findou a rancorosa conversa, Seo José desceu até a padaria e lá contou tudo o que ouvira para os fregueses com quem conversou.
          Suas idas à padaria aumentaram nos dias seguintes, assim como ir ao supermercado e caminhar pelo bairro, afinal até mesmo a um quarteirão de distância conseguia ouvir tudo nos mínimos detalhes. O fofoqueiro estava feliz. Não conseguia mais dormir devido à sua aguçada audição, sentia-se afortunado por ter várias vezes ao dia notícias abrasadoras para contar. A coceira na língua não mais o atormentava; ouvir e comentar tornou-se tão mecânico que horas depois nem mais se lembrava do que havia dito.
          Extenuado e apresentando os primeiros sinais de insanidade devido à falta de sono e repouso, sentiu necessidade de dormir por uma noite inteira. Deitou-se no conforto de sua cama na tentativa de adormecer, mas as vozes não lhe deixavam relaxar e esvaziar a mente. Tornou-se escravo do binóculo e das janelas que podia avistar. Iniciou-se uma batalha colossal entre demência e sanidade no âmago do alucinado e abatido senhor. No entanto, horas mais tarde o exército de vozes encobriu por derradeiro até mesmo seus pensamentos.
          Passaram-se dias desde que Seo José havia sido visto pela última vez. Os curiosos do condomínio vizinho tentaram inutilmente espioná-lo; só conseguiram avistar um binóculo que permanecia imóvel durante horas saído de uma fresta entre as cortinas de seu apartamento. Todos comentavam sobre a história do vizinho que enlouquecera de tanto bisbilhotar.
         Numa tarde em que todos se divertiam na área de lazer do prédio, o som estridente de uma sirene de ambulância rompeu a rotina dos moradores quando estacionou em frente à portaria. Dois enfermeiros desceram do veículo e correram pelo hall até o elevador. Formou-se uma multidão no local à espera do fim do mistério que tanto os intrigava; cada um conjeturando sobre o que estariam prestes a testemunhar. Quando a porta do elevador se abriu, o silêncio caiu sobre os intrometidos. Seo José estava magro, com olheiras profundas e cabelo embaraçado.
            Trajando uma camisa de força, foi levado pelos enfermeiros até o veículo enquanto proferia difamações sobre a vida particular dos vizinhos que ali se encontravam. As fofoqueiras tradicionais da redondeza deleitavam-se com o maior escândalo já ocorrido na vizinhança. Assim que a ambulância partiu, surgiram suposições maliciosas que se espalharam pelo bairro a respeito do que realmente teria acontecido ao rei da notícia.
        − Coitado do Seo José! – comentou uma das fuxiqueiras destilando o veneno – Como é que pode um homem tão bom ficar louco de uma hora para outra, não é mesmo? Falam por aí que ele fez um pacto com o tinhoso! Uma amiga, que não posso dizer quem é, que da janela dela dava para ver ele fazendo bruxaria dentro do apartamento. Parece que tinha um pentagrama desenhado no chão, velas vermelhas e pretas acesas, é! Se é verdade eu não sei. Parece que ele bebia e usava drogas também. Bom, não cabe a nós julgar ninguém, né? Cada um tem o seu estilo de vida e a gente tem mais é que respeitar as escolhas alheias, não é verdade?

Rodrigo Moura © 2011 Todos os Direitos Reservados

11 comentários:

Marcia Mah disse...

Rodrigo, que deliciosa surpresa, não sabia que voce escrevia tão bem.
Comecei espiando (como seu José) e só sosseguei quando chegou ao fim do conto.
Isso é uma proesa nos dias de hoje, onde não paramos pra apreciar quase nada.
Diria melhor: é talento mesmo!
Parabéns, beijos Marcia Mah

Pontes disse...

Oi Rodrigo!

Parabéns pelo texto. Li de cabo a rabo, curioso com o fim do Seu José!!

Abraços,

Rodrigo Moura disse...

OSSA, QUANTA ENERGIA BÔUA!!!

MARCIA MAH!!!
...Fico contente por teres gostado do conto!!!
Seu comentário incentiva-me a melhorar nos próximos contos.
Diante desse elogio, a responsabilidade de não deixar cair o nível nos próximos é maior.
Fico feliz por ter espiado o blog, obrigado!!!
BJS!!! RoDrIgO

PONTES, meu querido!!!
Você lê mesmo o que escrevo, hein!
Cada comentário seu é um estimado incentivo.
Sinto sinceramente que meus contos lhe agradam, porém sei que é expert em português...
Então, não se assuste se estiverem em desacordo com a nova ortografia!!!
OBRIGADO + 1a vez!!!

Paulo Donizzeti disse...

Muito bom!!! Vou te dar um puxão de orelha rsrs eu nunca li algo que voce tivesse escrito,gostei muito da estória e vê se continua escrevendo para nosso deleite.Parabéns!!!

Air S. Antunes disse...

Bem que você poderia ser chamado de Nelson Rodrigo. Gostei do seu conto, um conto rodrigoano...

Rodrigo Moura disse...

PAULO, fico contente que tenha gostado,
confesso que este conto é um
divisor de águas em relação ao estilo ao aprendizado.
Obrigadão pela visita e pela leitura!
Abração!

AIR, que surpresa!!!
Confesso que me lembra o ritmo e as pausas da narração do José Wilker no "A Vida Como Ela é"...
Obrigado pelo elogio, amigo!
...Mas espero que o Grande Nelson não se ofenda!!!! Rsrs...
Abraço Grande!

A Poeta de Alcova disse...

Bem, do poeta eu já conhecia o talento. Agora contista! Adorei o estilo da "Vida como ela é". rs O texto flui, prende atenção, nos leva ao clímax e a um final com cara de "continua"...
Eu adoro e admiro a obra de Nelson Rodrigues, com seu estilo inconfundível, polêmico, de cara lavada. O discípulo está bem no caminho do mestre da vida real! Parabéns, estou adorando este seu jeito novo de escrever.
Beijo

Rodrigo Moura disse...

POETA DE ALCOVA, quem me dera!
Nelson Rodrigues é ótimo, mas estava longe de querer fazer algo parecido.
Brinquei com o Air no sentido de lembrar o ritmo da narração do José Wilker, somente isso...
Mas se vocês identificaram um Nelson no meio do texto, não vou duvidar.
Apenas fluiu sem referências.
Thanks, BJS!!!

A Poeta de Alcova disse...

E de parágrafo em parágrafo, letra a letra, conto e pontos, você vai se encontrando, em referências, inspirações, lembranças, criações... e será você, sempre! Beijo

Carolina Rabelo disse...

Continua, continua, continua! rs

Adorei, Rodrigo... me prendeu do começo ao fim, fiquei intrigada, conseguia visualizar as cenas descritas com perfeição...
Que talento, exponha-o cada vez mais!!

Beijos!!

Rodrigo Moura disse...

CAROLINA, minha jardineira!
Que bom que gostaste! Fico contente de ter escrito algo que agradou aos amigos.
Estimo muito a opinião de vocês,
então, posso acreditar que estou no caminho certo?
Tentarei escrever mais!!!
Obrigado pela regada!!! BJS.