24/11/2011

A Extinção da Verdade

Vivemos em um mundo de mentiras? Sim! As mentiras chegam até nós através de todos os tipos de mídia. Nos jornais e na TV - como nas revistas de fofoca que projetam relacionamentos de marketing das celebridades - há propagação de notícias sucedidas do meio político que procuram implantar acontecimentos para aumentar o índice de popularidade de um determinado presidente. Nos livros de História encontramos fatos que se tornaram notórios pela maneira como foram registrados, mas não como realmente aconteceram. Recebemos falsas informações também por uma mídia chamada “voz humana”.

A sociedade criada por George Orwell, no clássico “1984”, fundamenta-se na idéia de uma coletividade ideal controlada por um único partido, onde o “Grande Irmão” é o ser supremo que comanda a vida das pessoas por meio da imposição de uma realidade manipulada. Um dos fatos mais curiosos deste romance é que a cada ano as palavras vão sendo apagadas, substituídas por termos criados numa linguagem própria. Toda espécie de publicação, inclusive do passado, é alterada para que determinada palavra deixe de existir caso desperte uma reflexão, assim não haverá definição para o que se sente se não houver uma palavra que o identifique. Portanto, o Partido esconde a verdade delineando uma sociedade exemplar para que a população não se revolte contra um sistema.

Traçando um paralelo entre 1984 e a nossa “realidade”, podemos observar que somos nosso próprio “Grande Irmão” impondo a nós mesmos o que é ou não real. Apagamos fatos em nossa memória deixando a sensação de que algo existiu, só trazemos à tona o que julgamos ser benéfico e satisfatório às nossas necessidades e, principalmente, aceitável ao nosso consciente.

Segundo David Livingstone Smith, autor da obra “Por que mentimos? – Os Fundamentos Biológicos e Psicológicos”, “os seres humanos mentem porque essa é uma característica básica dos seres vivos. Qualquer pessoa incapaz de mentir tem uma grande chance de se tornar um pária social, porque a vida social humana gira em torno de mentiras. As pessoas desejam ser livres para poderem mentir, entretanto, não admitem serem vítimas de mentiras”.

Criamos máscaras para encobrir mágoas, conflitos, dores ou feridas de inconscientes guerras interiores - não se trata de sair por aí sendo falso com todo mundo ou que todos são falsos ao nosso redor - estas máscaras representam a definição de Smith que, em conjunto com o Grande Irmão de cada um, formam a nossa verdade. Há também as “realidades” de razão patológica (determinadas por transtornos de personalidade ou neuroses) as quais resultam a mentira compulsiva, a auto-imagem burlesca, a ostentação de qualidades inexistentes e a dimensão exacerbada de algo ínfimo. Partindo do pressuposto de que cada um tem sua própria verdade, entende-se que o que para uns é real para outros é inventivo.

Mas onde está a verdade? Cada indivíduo vive isolado em seu mundo interior e nem sempre é possível identificar o que é ou não falso, isso acontece desde que o ser humano surgiu. A tendência é piorar devido à hiperconectividade, pois se este “isolamento” ocorre mesmo havendo uma relação interpessoal, com a comunicação exclusivamente virtual não haverá uma verdade única. Sábio é o antigo ditado que diz que só temos duas certezas na vida: a que estamos vivos e a que um dia morreremos. Portanto, a verdade pode ser modificada por completo através da realidade de cada um.

Rodrigo Moura © 2011 Todos os Direitos Reservados

Um comentário:

Andréa Freire disse...

Psicanálise e Cinema, uau! Crítica oportuna ao poder midiático que manipula e corrompe a verdade...