16/10/2014

De Fogo


            Pairava no ar uma densa fumaça esbranquiçada com cheiro de hambúrguer sobre a chapa quente. No alto das coloridas geladeiras expositoras, uma TV de LED exibia o aguardado primeiro debate com os candidatos à Presidência da República no segundo turno. As mesas de cor tabaco eram ocupadas por fregueses que pareciam divertir-se discretamente com os comentários megafônicos do solitário e embriagado ocupante de uma das mesas vizinhas.
               Nosso solitário personagem, um senhor na faixa dos cinquenta anos, tomava um gole de sua cerveja preferida, batia o copo na mesa e a plenos pulmões anunciava sua incorruptível opinião política: “Esse daí foi atrás da outra no segundo turno! Que coisa feia homem se esconder atrás de mulher!”. Os outros fregueses entreolhavam-se trocando leves sorrisos de pensamentos irônicos.
                “Se a coisa tá ruim, deixa do jeito que tá! Mexer pra quê? Corrupção tem em todo lugar, tá bom desse jeito!”, bradou despejando mais cerveja no copo. A voz do histriônico ébrio abafou por completo o som da TV durante todo o debate, ninguém ousou pedir silêncio, preferiram observar atentamente uma cena que só acontece uma vez a cada quatro anos.


Rodrigo Moura © 2014 Todos os Direitos Reservados

Um comentário:

Evandro L. Mezadri disse...

É isso aí, Rodrigo!
Toda eleição é o mesmo circo, os mesmos comentários, os mesmos ataques e ao final, as mesmas decepções, resumiu com brilhantismo!
Saudades do poeta!
Grande abraço, sucesso e um ótimo final de semana!